(post dedicado ao Bin Laden) *piada interna*
"Gosto de fazer samba de dor de cotovelo, falando de mulher, de amor, de Deus, porque é isso que acho importante e acaba se tornando uma coisa importante"
O Blues e o Samba são duas manifestações distintas dos ritmos africanos que foram levados pelos escravos para as Américas. O blues se originou entre os negros trabalhadores agrícolas do sul dos Estados Unidos, em ambiente rural, mas só tomou sua forma final nos centros urbanos, como Nova Orleans, Memphis e Chicago. No Brasil deu-se o mesmo, e o samba como conhecemos se originou em Salvador e no Rio de Janeiro. Ambos também tem em comum o amálgama dos ritmos africanos com as melodias da música européia. E também compartilham a temática das músicas: amores perdidos, mulheres, Deus, saudades e a crônica da vida nas camadas mais baixas da sociedade. Mas o ritmo que surgiu nos trópicos do hemisfério sul é diferente do originário das áreas temperadas do hemisfério norte. O samba, por exemplo, é muito mais calcado na percursão dos tambores, pandeiros e tamborins, junto com o cavaquinho e o violão, este último o instrumento típico do blues.
E se existe um sambista que poderia muito bem ser um típico bluesman se seus antepassados tivessem sido levados para o delta do Mississipi e não para o Rio de Janeiro, este seria Angenor de Oliveira, o Cartola. Primeiro de oito filhos do casal Sebastião Joaquim de Oliveira e Aída Gomes de Oliveira, nasceu em 1908 no bairro do Catete, onde o pai era funcionário do Palácio Presidencial. Depois a família se mudou para Laranjeiras, e o menino Angenor (que deveria se chamar Agenor, mas foi vítima de erro do escrevente no cartório ao ser registrado), torcedor do Fluminense, o time do bairro, teve acesso à escola primária, algo raro para crianças negras na época. Também desde garoto ele brincava o carnaval nos ranchos e blocos de Laranjeiras. Mas a situação da família ficou difícil e em 1919 se mudaram para o Morro da Mangueira, na Zona Norte, onde então havia uma pequena favela, com menos de 50 barracos. Lá, o adolescente Angenor, já tendo largado da escola, se tornou protegido do grande sambista e malandro Carlos Cachaça. Foi trabalhar de pedreiro, e por usar um chapéu coco para proteger a cabeça do cimento, ganhou o apelido. Aos 17 anos, sua mãe morreu e os crescentes conflitos com o pai por causa de seu comportamento boêmio o levaram a sair de casa. Começou a viver na vadiagem, dormindo em vagões de trem, perambulando pela noite e frequentando prostíbulos, onde adquiriu uma variedade de doenças venéreas. Essa vida de malandragem o levou a se enfraquecer, e Cartola foi "adotado", por Deolinda, uma vizinha mais velha, com quem acabou se casando. Em 1925 criou, com Carlos Cachaça e outros malandros do morro, o Bloco dos Arengueiros, que três anos depois se tornou a Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira. Na década de 30 seus sambas começaram a fazer sucesso na voz de famosos cantores da época, como Mário Reis e Francisco Alves. Conheceu e ficou amigo de Noel Rosa, e juntos compuseram "Tenho um novo amor", gravada por Carmen Miranda. Vários de seus sambas foram levados pela Mangueira para os desfiles de Carnaval.
Em 1940, Cartola foi convidado pelo Maestro Heitor Villa-Lobos, juntamente com outros músicos como Donga, Jararaca e Ratinho, João da Baiana e Pixinguinha, para uma gravação de músicas dos diversos ritmos afro-brasileiros, encomendados pelo maestro americano Leopold Stokowski. A histórica gravação está hoje preservada no Registro Nacional de Gravações da Biblioteca do Congresso Norte-Americano. Nesta época Cartola tinha um programa de rádio chamado "A voz do morro", onde apresentava novos sambistas. Mas pouco após estas consagrações, veio a reviravolta trágica digna de um blues. Em 1947 brigou com a nova diretoria da Mangueira e deixou o morro. Pouco após, sua amada Deolinda morreu, e ele teve uma doença grave, provavelmente Meningite. Cartola sumiu do mapa, e muitos achavam que estivesse morto. Passou assim as próximas duas décadas, trabalhando em subempregos e entregue à bebida. Foi "salvo" pela segunda mulher da sua vida, Eusébia do Nascimento, a dona Zica, que o levou para morar com ela na Mangueira.
Mas o sambista Cartola só foi redescoberto em 1957, quando trabalhava de vigia e lavador de carros em um prédio de Ipanema. Foi reconhecido pelo jornalista Sérgio Porto, mais conhecido pela alcunha de Stanislaw Ponte Preta. Porto resolveu ajudar o sambista, em uma série de artigos divulgou que ele estava vivo, e o levou a fazer apresentações na rádio e em show. Na década de 60, com a ajuda de admiradores da Zona Sul carioca, Cartola e Dona Zica abriram o lendário bar Zicartola, no centro do Rio, que se tornou um dos principais locais de encontro dos sambistas de raiz com os jovens de classe média que naquela época desenvolviam a Bossa Nova. Apesar da programação musical impecável e os famosos quitutes preparados por dona Zica, o bar era mal administrado e fechou após apenas dois anos. Mas foi o suficiente para que, com parceiros como Élton Medeiros e o velho companheiro Carlos Cachaça, Cartola compusesse de improviso, no bar, duarante as noitadas, belíssimos clássicos como "O sol nascerá" e "Alvorada". A primeira fez parte do repertório do histórico concerto "Opinião", organizado por Nara Leão, que o tornou definitivamente conhecido pelo público mais jovem, de classe média.
Foi apenas em 1974, aos 66 anos, que Cartola gravou seu primeiro LP, graças aos esforços do pesquisador musical Marcus Pereira. Respaldado por excelentes músicos, como o violonista e arranjador Dino Sete Cordas, Cartola gravou uma impressionante coleção de algumas das mais belas músicas da história da música brasileira. Com letras de impecável português, equilibrando magistralmente elegância e emoção, tratando dos temas citados no começo deste post, ou seja, muita dor de cotovelo, corações partidos e uma "tristeza alegre", traduzida em músicas como "Tive Sim"(feita para dona Zica), "Corra e olhe o céu", "Quem me vê sorrindo", "Disfarça e chora", "Acontece", "alvorada" e "O Sol nascerá". Mesmo músicas aparentemente mais alegres, como as duas últimas, tinham um subtexto de tristeza comparáveis aos mais tristes blues. Em 1976, saiu seu segundo LP, que trazia outros clássicos como "As rosas não falam", "Senhora Tentação", a tristíssima "O mundo é um moinho" e a maravilhosa "Preciso de me encontrar", essa composta por Candeia. Cartola morreu em 1980, mas suas músicas viverão para sempre. Enquanto houver um coração partido, suas letras e suas melodias tristes farão sentido.
Cartola - Cartola (1974)
1 - Disfarça E Chora (Cartola - Dalmo Casteli)
2 - Sim (Cartola - Oswaldo Martins)
3 - Corra E Olhe O Céu (Cartola - Dalmo Casteli)
4 - Acontece (Cartola)
5 - Tive Sim (Cartola)
6 - O Sol Nascerá (Cartola - Elton de Medeiros)
7 - Alvorada (Cartola - Carlos Cachaça - Hermínio B. de Carvalho)
8 - Festa Da Vinda (Cartola - Nuno Veloso)
9 - Quem Me Vê Sorrindo (Cartola - Carlos Cachaça)
10 - Amor Proibido (Cartola)
11 - Ordenes E Farei (Cartola - Aluizio)
12 - Alegria (Cartola)
Ouveaê!
Cartola - Cartola (1976)
01 - O Mundo é um Moínho
02 - Minha
03 - Sala de Recepção
04 - Não Posso Viver Sem Ela
05 - Preciso Me Encontrar
06 - Peito Vazio
07 - Aconteceu
08 - As Rosas Não Falam
09 - Sei Chorar
10 - Ensaboa Mulata
11 - Senhora Tentação
12 - Cordas de Aço
Ouveaê!
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terça-feira, 13 de julho de 2010
quarta-feira, 7 de abril de 2010
Música na cadeia
Não estava conseguindo pensar em um disco pra por aqui, mas ontem na madruga voltando pra casa após a cerca frango no carro do Erick, tocou na Mitsubishi FM a sensacional "Cocaine Blues", do grande Johnny Cash, e percebi que estava faltando aqui o discaço do homem gravado em 1968 na prisão californiana de Folsom, um dos grandes clássicos do badass country. Lembrei também que outro grande, o blueseiro BB King, também havia gravado um disco na cadeia, nesse caso na Cook County Jail, perto de Chicago. Portanto aí vai uma dobradinha de discos clássicos gravados ao vivo perante uma plateia formada por assassinos, assaltantes, estelionatários, traficantes, estupradores... enfim, tudo gente fina.
Johnny Cash - At Folsom Prison (1968)
Muitos (eu inclusive) torcem o nariz para esse estilo, mas muitos (eu inclusive), dizem: "eu não gosto de country, mas johnny cash detona!". Pois é, o cara era fodão. O grande lance de Cash foi juntar as melodias country à rebeldia do rock and roll, afinal ele foi uma das crias da Sun Records, de Memphis, que lançou também nomes como Carl Perkins, Jerry Lee Lewis e um certo Elvis Presley. Em 1968 Johnny Cash já era um astro da música country americana, tinha se casado com a ex-cantora mirim June Carter e tentava se livrar do vício em remédios (tudo bem retratado na cinebiografia Johhny e June). Para se purificar, o homem agendou essa apresentação na infame prisão californiana. No setlist, só música sobre bandidagem, morte, cadeia, drogas, redenção, e claro, mulher. Ainda na Sun Records, o primeiro sucesso lançado por Cash foi "Folsom Prison Blues", que, após a clássica introdução "Hello, I'm Johnny Cash", abre a apresentação para delírio da bandidagem. Seguem pepitas como a já citada "Cocaine Blues" ("i took a shot of cocaine and I shot my woman down".. badass!), "25 minutes to go" (que narra os últimos momentos de um homem no corredor da morte), "I got stripes", "Orange blossom special" e "Jackson", esta em dueto com a esposa June. A energia da platéia criminosa e a maestria de Cash em domar essa energia, que poderia fácil virar uma rebelião, dão o tom do disco.
Johnny Cash - At Folsom Prison (1968)
01 - Folsom Prison Blues
02 - Busted
03 - Dark as a Dungeon
04 - I Still Miss Someone
05 - Cocaine Blues
06 - 25 Minutes to Go
07 - Orange Blossom Special
08 - The Long Black Veil
09 - Send a Picture of Mother
10 - The Wall
11 - Dirty Old Egg-Suckin’ Dog
12 - Flushed from the Bathroom of Your Heart
13 - Joe Bean
14 - Jackson
15 - Give My Love to Rose
16 - I Got Stripes
17 - The Legend of John Henry’s Hammer
18 - Green, Green Grass of Home
19 - Greystone Chapel
B.B. King - Live at Cook County Jail (1971)
Esse eu conhecia do vinil que o Caco tinha e hoje se encontra na Manga Rosa. Vale ler o texto da contracapa, escrito por Geoffrey Harding, um dos presos que assistiu a apresentação. A cadeia próxima a Chicago era uma das mais violentas dos EUA quando, em 1968, um novo diretor, o psiquiatra negro Winston E. Moore, chegou e mudou tudo. Pra começar, confiscou três geladeiras de celas ocupadas por mafiosos, além do tradicional confisco de armas e drogas. Claro que os presos não gostaram muito, então para acalmar os ânimos ele promoveu esse show do Rei do Blues no pátio da prisão. E a química entre o bluesman e os presos foi total, ambas as partes parecem muito felizes com o show, que começa com a detonante "Every day I have the blues", seguida por "How blue can you get" e atinge o ápice com uma das melhores versões do clássico "The thrill is gone". Sonzeraça!
B.B. King - Live at Cook County Jail (1971)
01 - Introductions
02 - Every day I have the blues
03 - How blue can you get?
04 - Worry, Worry
05 - Medley: 3 o'clock blues/Darlin' you know I love you
06 - Sweet sixteen
07 - The thrill is gone
08 - Please accept my love
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
Nina Simone Sings the Blues (1967)

Ah, Nina... A moça era o blues e o soul encarnados. Esse disco de 1967 é um dos seus melhores registros, mas claro, tem muitos outros para explorar. Nesse link, você acha quase tudo de Miss Simone. Já nesse humilde Ouveaê ficamos com esse Sings the Blues, que o nome já entrega: é bluesera da melhor qualidade, com composições de George Gershwin, Bessie Smith e talvez a melhor versão do clássico "The House of the Rising Sun". Belo representante dos sons "to make love to your ol' lady".
Nina Simone Sings the Blues (1967)
01 - Do I Move You?
02 - Night and Day
03 - In The Dark
04 - Real Real
05 - My Man's Gone Now
06 - Backlash Blues
07 - I Want a Litte Sugar in My Bowl
08 - Buck
09 - Since I Fell for You
10 - The House of the Rising Sun
11 - Blues for Mama
12 - Do I Move You? (Version 2)
13 - Whatever I Am (You Made Me)
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