terça-feira, 13 de julho de 2010

Cartola, o Bluesman do Brasil

(post dedicado ao Bin Laden) *piada interna*


"Gosto de fazer samba de dor de cotovelo, falando de mulher, de amor, de Deus, porque é isso que acho importante e acaba se tornando uma coisa importante"


O Blues e o Samba são duas manifestações distintas dos ritmos africanos que foram levados pelos escravos para as Américas. O blues se originou entre os negros trabalhadores agrícolas do sul dos Estados Unidos, em ambiente rural, mas só tomou sua forma final nos centros urbanos, como Nova Orleans, Memphis e Chicago. No Brasil deu-se o mesmo, e o samba como conhecemos se originou em Salvador e no Rio de Janeiro. Ambos também tem em comum o amálgama dos ritmos africanos com as melodias da música européia. E também compartilham a temática das músicas: amores perdidos, mulheres, Deus, saudades e a crônica da vida nas camadas mais baixas da sociedade. Mas o ritmo que surgiu nos trópicos do hemisfério sul é diferente do originário das áreas temperadas do hemisfério norte. O samba, por exemplo, é muito mais calcado na percursão dos tambores, pandeiros e tamborins, junto com o cavaquinho e o violão, este último o instrumento típico do blues.

E se existe um sambista que poderia muito bem ser um típico bluesman se seus antepassados tivessem sido levados para o delta do Mississipi e não para o Rio de Janeiro, este seria Angenor de Oliveira, o Cartola. Primeiro de oito filhos do casal Sebastião Joaquim de Oliveira e Aída Gomes de Oliveira, nasceu em 1908 no bairro do Catete, onde o pai era funcionário do Palácio Presidencial. Depois a família se mudou para Laranjeiras, e o menino Angenor (que deveria se chamar Agenor, mas foi vítima de erro do escrevente no cartório ao ser registrado), torcedor do Fluminense, o time do bairro, teve acesso à escola primária, algo raro para crianças negras na época. Também desde garoto ele brincava o carnaval nos ranchos e blocos de Laranjeiras. Mas a situação da família ficou difícil e em 1919 se mudaram para o Morro da Mangueira, na Zona Norte, onde então havia uma pequena favela, com menos de 50 barracos. Lá, o adolescente Angenor, já tendo largado da escola, se tornou protegido do grande sambista e malandro Carlos Cachaça. Foi trabalhar de pedreiro, e por usar um chapéu coco para proteger a cabeça do cimento, ganhou o apelido. Aos 17 anos, sua mãe morreu e os crescentes conflitos com o pai por causa de seu comportamento boêmio o levaram a sair de casa. Começou a viver na vadiagem, dormindo em vagões de trem, perambulando pela noite e frequentando prostíbulos, onde adquiriu uma variedade de doenças venéreas. Essa vida de malandragem o levou a se enfraquecer, e Cartola foi "adotado", por Deolinda, uma vizinha mais velha, com quem acabou se casando. Em 1925 criou, com Carlos Cachaça e outros malandros do morro, o Bloco dos Arengueiros, que três anos depois se tornou a Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira. Na década de 30 seus sambas começaram a fazer sucesso na voz de famosos cantores da época, como Mário Reis e Francisco Alves. Conheceu e ficou amigo de Noel Rosa, e juntos compuseram "Tenho um novo amor", gravada por Carmen Miranda. Vários de seus sambas foram levados pela Mangueira para os desfiles de Carnaval.

Em 1940, Cartola foi convidado pelo Maestro Heitor Villa-Lobos, juntamente com outros músicos como Donga, Jararaca e Ratinho, João da Baiana e Pixinguinha, para uma gravação de músicas dos diversos ritmos afro-brasileiros, encomendados pelo maestro americano Leopold Stokowski. A histórica gravação está hoje preservada no Registro Nacional de Gravações da Biblioteca do Congresso Norte-Americano. Nesta época Cartola tinha um programa de rádio chamado "A voz do morro", onde apresentava novos sambistas. Mas pouco após estas consagrações, veio a reviravolta trágica digna de um blues. Em 1947 brigou com a nova diretoria da Mangueira e deixou o morro. Pouco após, sua amada Deolinda morreu, e ele teve uma doença grave, provavelmente Meningite. Cartola sumiu do mapa, e muitos achavam que estivesse morto. Passou assim as próximas duas décadas, trabalhando em subempregos e entregue à bebida. Foi "salvo" pela segunda mulher da sua vida, Eusébia do Nascimento, a dona Zica, que o levou para morar com ela na Mangueira.

Mas o sambista Cartola só foi redescoberto em 1957, quando trabalhava de vigia e lavador de carros em um prédio de Ipanema. Foi reconhecido pelo jornalista Sérgio Porto, mais conhecido pela alcunha de Stanislaw Ponte Preta. Porto resolveu ajudar o sambista, em uma série de artigos divulgou que ele estava vivo, e o levou a fazer apresentações na rádio e em show. Na década de 60, com a ajuda de admiradores da Zona Sul carioca, Cartola e Dona Zica abriram o lendário bar Zicartola, no centro do Rio, que se tornou um dos principais locais de encontro dos sambistas de raiz com os jovens de classe média que naquela época desenvolviam a Bossa Nova. Apesar da programação musical impecável e os famosos quitutes preparados por dona Zica, o bar era mal administrado e fechou após apenas dois anos. Mas foi o suficiente para que, com parceiros como Élton Medeiros e o velho companheiro Carlos Cachaça, Cartola compusesse de improviso, no bar, duarante as noitadas, belíssimos clássicos como "O sol nascerá" e "Alvorada". A primeira fez parte do repertório do histórico concerto "Opinião", organizado por Nara Leão, que o tornou definitivamente conhecido pelo público mais jovem, de classe média.

Foi apenas em 1974, aos 66 anos, que Cartola gravou seu primeiro LP, graças aos esforços do pesquisador musical Marcus Pereira. Respaldado por excelentes músicos, como o violonista e arranjador  Dino Sete Cordas, Cartola gravou uma impressionante coleção de algumas das mais belas músicas da história da música brasileira. Com letras de impecável português, equilibrando magistralmente elegância e emoção, tratando dos temas citados no começo deste post, ou seja, muita dor de cotovelo, corações partidos e uma "tristeza alegre", traduzida em músicas como "Tive Sim"(feita para dona Zica), "Corra e olhe o céu", "Quem me vê sorrindo", "Disfarça e chora", "Acontece", "alvorada" e "O Sol nascerá". Mesmo músicas aparentemente mais alegres, como as duas últimas, tinham um subtexto de tristeza comparáveis aos mais tristes blues. Em 1976, saiu seu segundo LP, que trazia outros clássicos como "As rosas não falam", "Senhora Tentação", a tristíssima "O mundo é um moinho" e a maravilhosa "Preciso de me encontrar", essa composta por Candeia. Cartola morreu em 1980, mas suas músicas viverão para sempre. Enquanto houver um coração partido, suas letras e suas melodias tristes farão sentido.



Cartola - Cartola (1974)


1 - Disfarça E Chora (Cartola - Dalmo Casteli) 
2 - Sim (Cartola - Oswaldo Martins) 
3 - Corra E Olhe O Céu (Cartola - Dalmo Casteli) 
4 - Acontece (Cartola) 
5 - Tive Sim (Cartola) 
6 - O Sol Nascerá (Cartola - Elton de Medeiros) 
7 - Alvorada (Cartola - Carlos Cachaça - Hermínio B. de Carvalho) 
8 - Festa Da Vinda (Cartola - Nuno Veloso) 
9 - Quem Me Vê Sorrindo (Cartola - Carlos Cachaça) 
10 - Amor Proibido (Cartola) 
11 - Ordenes E Farei (Cartola - Aluizio) 
12 - Alegria (Cartola) 


Ouveaê!


Cartola - Cartola (1976)




01 - O Mundo é um Moínho
02 - Minha
03 - Sala de Recepção
04 - Não Posso Viver Sem Ela
05 - Preciso Me Encontrar
06 - Peito Vazio
07 - Aconteceu
08 - As Rosas Não Falam
09 - Sei Chorar
10 - Ensaboa Mulata
11 - Senhora Tentação
12 - Cordas de Aço 



Ouveaê!

terça-feira, 29 de junho de 2010

Gilberto Gil - Ao Vivo na Escola Politécnica da USP (1973)

A Lígia deu a dica e eu coloco aqui pra manter este Ouveaê vivo em tempo de Copa do Mundo. Recém-chegado do exílio em Londres e com o repertório de 'Expresso 2222' na ponta da língua, Gil foi convidado pelos estudantes da USP para fazer um show de protesto pela tortura e morte do estudante de Geologia Alexandre Vannuchi Leme pela ditadura militar. Durante mais de três horas, ele cantou e conversou com a estudantada, só na baase da voz e o violão. durante as músicas, o silêncio da platéia é total. Quando Gil fala, ouvem-se risadas e aplausos. A qualidade da gravação, feita nos bons e velhos gravadores de rolo, é perfeita. Sintam-se transportados àquela época

Créditos para o Toque Musical

Gilberto Gil - Ao Vivo na Escola Politécnica da USP (1973)

gil fala
chicletes com banana
minha nêga na janela
senhor delegado
eu quero um samba
meio de campo
cálice
gil fala
o sonho acabou
ladeira da preguiça
expresso 2222
procissão
gil fala
domingo no parque
gil fala
umeboshi
objeto sim objeto não
gil fala
ele e eu
noite morena
cidade de salvador
iansã
eu só quero um xodó
edith cooper
back in bahia
filhos de gandhi
eu preciso aprender a só ser
cálice (final)

Ouveaê! Parte 1 - Parte 2

terça-feira, 8 de junho de 2010

Miles Davis - Ascenseur pour l'échafaud (1958)


Para continuar a toada de trilhas sonoras, aí vai mais uma clássica. Outro dia vi esse filme Ascenseur pour l'échafaud na casa da namorada. Obra de estreia do francês Louis Malle, trata-se de uma película na pegada film noir sobre um cara que tem um caso com a mulher do chefe e mata o patrão. Mas no meio da fuga tinha um elevador, e aí segue uma história cheia de reviravoltas. Bom filme, mas o que o tornou um clássico é a trilha sonora encomendada a ninguém menos que Miles Davis, que um ano antes de lançar 'Kind of Blue' já se aventurava pelas harmonias modais. O trumpete de Miles, respaldado por músicos franceses, cria o clima nos momentos mais acelerados e mais contidos do filme. Sonzeraça, e o filme é recomendadíssimo também.

Miles  Davis - Ascenseur pour l'échafaud (1958)


1. Generique

2. L'Assassinat de Carala
3. Sur L'Autoroute
4. Julien dans L'Ascenseur
5. Florence Sur les Champs-Elysees
6. Diner au Motel
7. Evasion de Julien
8. Visite du Vigile
9. Au Bar du Petit Bac
10. Chez le Photographe du Motel

domingo, 30 de maio de 2010

Tributo a Dennis Hopper - Easy Rider Orignal Soundtrack (1969)

Neste sábado (29 de maio de 2010), morreu, por complicações de um câncer de próstata, o ator e cineasta Dennis Hopper, que embora os mais jovens conheçam mais por papéis de vilão em filmes como Velocidade Máxima e Waterworld, um dia foi o símbolo da geração que, guiada pelos ideais hippies de sexo, drogas e rock and roll, revolucionou o cinema norte-americano a partir do final dos anos 60. (ufa, que frase longa).
O ano era 1969, e a geração hippie já havia revolucionado a política, os costumes, a música e as artes plásticas, mas em Hollywood eles ainda eram vistos como chapados abobados. Hopper, junto com os amigos Peter Fonda e Jack Nicholson, ajudados pelo mago dos filmes B Roger Corman, estavam tentando mudar isso. Após terem feito em parceria os psicodélicos, mas ainda pouco transgressores The Trip, Psych-out e Head, o trio se juntou para contar a história de dois motoqueiros hippies que, após se derem bem com uma venda de cocaína, pegam suas Harleys depenadas e caem na estrada, em busca do sonho de liberdade e do mito norte-americano que a liberdade se encontra pegando a estrada numa moto possante. Hopper dirigiu o filme e co-estrela, como Billy, ao lado de Peter Fonda, o Capitain America, e Jack Nicholson, o advogado alcoólatra e quadrado que eles encontram no caminho e pega carona na viagem, até o antológico e tristíssimo final.
Pois bem, quando Billy e Capitain America pegam a estrada uma música começa a tocar. A porrada guitarreira rock and roll do Steppenwolf que virou um dos maiores clássicos do rock: Born to be Wild. O restante da trilha sonora é uma coleção de pedradas rock que evocam o clima do filme, que mudou para sempre a indústria do cinema ao se tornar um grande sucesso de público e crítica rodado no  underground, fora dos grandes estúdios. Diz a lenda que Hopper havia pensado em encomendar uma trilha original para o Crosby Stills Nash and Young, mas enquanto filmava, se deu conta que as músicas que ele ouvia na época tinham tudo a ver com o clima do filme. Além do Steppenwolf, que também colabora com a viajante e sensacional 'The Pusher', músicas de Jimmi Hendrix Experience, The Byrds e outras menos conhecidas mas também ótimas bandas, como Fraternity of Man, Electric Prunes e Holy Modal Rounders se encarregam de montar o pano de fundo musical para a aventura dos motoqueiros hippies.
Como é muito bem explicado no livro Easy Riders, Raging Bulls - Como a geração sexo drogas e rock and roll salvou Hollywood, de Peter Biskind, Easy Rider - Sem Destino foi o início da Hollywood que conhecemos hoje, abrindo caminho para Martin Scorcese e Francis Ford Coppola, a face mais séria da geração, e também para George Lucas e Steven Spielberg, que criaram o moderno blockbuster. Hopper fez personagens antológicos em Apocalypse Now, o épico de Coppola sobre a Guerra do Vietnã, e em Blue Velvet, obra-prima de David Lynch. Considerado a figura mais maluca de Hollywood, ele largou as drogas e o goró em meados dos anos 80 e apareceu em mais dezenas de filmes, alguns horríveis, dizendo que tinha uma política de nunca recusar um papel. 


como aqui é um blog de música, fica a homenagem ao grande Dennis Hopper em forma da trilha original de Easy Rider

Easy Rider Orignal Soundtrack (1969)

01. The Pusher - Steppenwolf
02. Born To Be Wild - Steppenwolf
03. The Weight - Smith
04. Wasn't Born To Follow - The Byrds
05. If You Want To Be A Bird - The Holy Modal Rounders
06. Don't Bogart Me (AKA Don't Bogart That Joint) - Fraternity Of Man
07. If Six Was Nine - The Jimi Hendrix Experience
08. Kyrie Eleison/Mardi Gras (When The Saints) - The Electric Prunes
09. It's Alright Ma (I'm Only Bleeding) - Roger McGuinn
10. Ballad Of Easy Rider - Roger McGuinn
 

Mas como vocês também tem que ver o file Easy Rider, vai o link pro torrent do dito

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Arthur Verocai - Arthur Verocai (1972)

Vocês conhecem Arthur Verocai? Eu também não conhecia até agora há pouco, quando a Chebel mandou no Twitter um link de uma mixtape que o DJ Nuts, exímio conhecedor da obra de Verocai (e da música brasileira em geral), fez da figura após a série de concertos Timeless, que homenageou, juntamente com o etíope Mulatu Astatke e o finado rapper J. Dilla, essa figura pouco conhecida mas importantíssima na História da Música Brasileira, .

Nascido no Rio de Janeiro em 1945, Verocai era portanto um moleque de 13 anos quando a Bossa Nova varreu o mapa da música brasileira em 1958, com o disco "Chega de Saudade", de João Gilberto. Estudou música com gente como Roberto Menescal, e foi um dos principais proponentes do assim chamado samba-jazz. Arranjou discos como o clássico Carlos, Erasmo, do Tremendão, e de uma galera do quilate de Jorge Ben, Gal Costa, Tim Maia. Luiz Melodia e Leny Andrade, entre outros.

Em 1972 lançou o auto intitulado álbum, uma seminal junção da tropicália e do samba jazz com o soul e o funk americanos. Disco raríssimo, foi descoberto por rappers gringos gerou samples para raps de Ludacris, MF Doom e Lil Brother, entre outros. Relançado em vinil pelo selo gringo Luv N' Haight, fez com que o recluso carioca fosse a Los Angeles executar o disco na íntegra diante duma plateia extasiada. Nuts, que tocou com Madlib na noite anterior, se encarregou de fazer uma mixtape que junta músicas do mitológico disco com sons de outros artistas que foram arranjados por Verocai.

Então aí vai, primeiramente, o disco Arthur Verocai, de 1972, com link surrupiado do Original Pinheiros Style

Arthur Verocai - Arthur Verocai (1972)
.

1. Caboclo
2. Pelas Sombras
3. Sylvia
4. Presente Grego
5. Dedicado a Ela
6. Seriado
7. Na Boca do Sol
8. Velho Parente
9. O Mapa
10. Karina [Domingo no Grajau]

Ouveaê!

e a Mixtape do DJ Nuts:

Ouveaê!

segunda-feira, 19 de abril de 2010

O Pavement está de volta

Mais um sintoma da volta aos nineties foi a anunciada volta de uma das bandas mais representativas do rock aletrnativo norte-americano dos anos 90, o Pavement. Formado em 1989 pelos amigos de infância Stephen Malkmus e Scott Kannberg, que dividem os vocais e a guitarra, o Pavement marcou época com sua sonoridade lo-fi, de músicas com estrutura 'fraturada', distorções repentinas, muito ruído branco e letras malucas e lacônicas. Em 1992 eles lançaram o clássico Slanted and Enchanted, com o baixista Mark Ibold e o baterista frito Gary Young, que deixou a banda um ano depois. Em 1994, com Steve West na bateria, eles lançaram o também maravilhoso Crooked Rain, Crooked Rain, que trazia o hit "Cut Your Hair". Isso não foi suficiente para levá-los ao mainstream, e o Pavement passou o restante da década militando no underground americano, e seu culto chegou à Europa e lugares distantes como o Brasil. Eles ainda lançaram mais três álbuns: Wowee Zowee, em 1995, Brighten the Corners, em 1997, e Terror Twillight, em 1999, ano em que a banda acabou, de maneira abrupta. Agora, 11 anos depois, eles estão de volta, e o que seriam apenas dois shows beneficentes já viraram uma turnê mundial, com rumores de shows no Brasil, inclusive abrindo para sir Paul McCartney. Para aquecer, lá vão os dois primeiros e essenciais álbuns dessa banda tão querida

Pavement - Slanted and Enchanted (1992)


O primeiro álbum do Pavement começa com a porrada "Summer Babe" e segue com outras pedradas, como Trigger Cut" e a fantástica "Loretta's Scars". Foi o disco que mudou a face do rock alternativo dos EUA ao abrir caminho para as experimentações lo-fi, com muita distorção e ruído por cima de melodias fofas e letras surreais.

01 - Summer Babe
02 - Trigger Cut
03 - No Life Singed Her
04 - In the Mouth a Desert
05 - Conduit for Sale!
06 - Zurich is Stained
07 - Chesley's Little Wrists
08 - Loretta's Scars
09 - Here
10 - Two States
11 - Perfume V
12 - Fame Throwa
13 - Jackals, False Grails: The Lonesome Era
14 - Our Singer

Ouveaê!

Pavement - Crooked Rain, Crooked Rain (1994)

Dois anos depois, com um baterista menos frito, o Pavement sobreviveu bem à "maldição do segundo disco". Menos experimental e mais pop, mas nem tanto, Crooked Rain, Crooked Rain trazia o hit "Cut Your Hair", que ganhou o videoclipe sensacional.




01 - Silence Kit
02 - Elevate Me Later
03 - Stop Breathin’
04 - Cut Your Hair
05 - Newark Wilder
06 - Unfair
07 - Gold Soundz
08 - 5-4=Unity
09 - Range Life
10 - Heaven Is a Truck
11 - Hit the Plane Down
12 - Fillmore Jive

Ouveaê!

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Música na cadeia


Não estava conseguindo pensar em um disco pra por aqui, mas ontem na madruga voltando pra casa após a cerca frango no carro do Erick, tocou na Mitsubishi FM a sensacional "Cocaine Blues", do grande Johnny Cash, e percebi que estava faltando aqui o discaço do homem gravado em 1968 na prisão californiana de Folsom, um dos grandes clássicos do badass country. Lembrei também que outro grande, o blueseiro BB King, também havia gravado um disco na cadeia, nesse caso na Cook County Jail, perto de Chicago. Portanto aí vai uma dobradinha de discos clássicos gravados ao vivo perante uma plateia formada por assassinos, assaltantes, estelionatários, traficantes, estupradores... enfim, tudo gente fina.

Johnny Cash - At Folsom Prison (1968)


Muitos (eu inclusive) torcem o nariz para esse estilo, mas muitos (eu inclusive), dizem: "eu não gosto de country, mas johnny cash detona!". Pois é, o cara era fodão. O grande lance de Cash foi juntar as melodias country à rebeldia do rock and roll, afinal ele foi uma das crias da Sun Records, de Memphis, que lançou também nomes como Carl Perkins, Jerry Lee Lewis e um certo Elvis Presley. Em 1968 Johnny Cash já era um astro da música country americana, tinha se casado com a ex-cantora mirim June Carter e tentava se livrar do vício em remédios (tudo bem retratado na cinebiografia Johhny e June). Para se purificar, o homem agendou essa apresentação na infame prisão californiana. No setlist, só música sobre bandidagem, morte, cadeia, drogas, redenção, e claro, mulher. Ainda na Sun Records, o primeiro sucesso lançado por Cash foi "Folsom Prison Blues", que, após a clássica introdução "Hello, I'm Johnny Cash", abre a apresentação para delírio da bandidagem. Seguem pepitas como a já citada "Cocaine Blues" ("i took a shot of cocaine and I shot my woman down".. badass!), "25 minutes to go" (que narra os últimos momentos de um homem no corredor da morte), "I got stripes", "Orange blossom special" e "Jackson", esta em dueto com a esposa June. A energia da platéia criminosa e a maestria de Cash em domar essa energia, que poderia fácil virar uma rebelião, dão o tom do disco.

Johnny Cash - At Folsom Prison (1968)


01 - Folsom Prison Blues
02 - Busted
03 - Dark as a Dungeon
04 - I Still Miss Someone
05 - Cocaine Blues
06 - 25 Minutes to Go
07 - Orange Blossom Special
08 - The Long Black Veil
09 - Send a Picture of Mother
10 - The Wall
11 - Dirty Old Egg-Suckin’ Dog
12 - Flushed from the Bathroom of Your Heart
13 - Joe Bean
14 - Jackson
15 - Give My Love to Rose
16 - I Got Stripes
17 - The Legend of John Henry’s Hammer
18 - Green, Green Grass of Home
19 - Greystone Chapel

B.B. King - Live at Cook County Jail (1971)


Esse eu conhecia do vinil que o Caco tinha e hoje se encontra na Manga Rosa. Vale ler o texto da contracapa, escrito por Geoffrey Harding, um dos presos que assistiu a apresentação. A cadeia próxima a Chicago era uma das mais violentas dos EUA quando, em 1968, um novo diretor, o psiquiatra negro Winston E. Moore, chegou e mudou tudo. Pra começar, confiscou três geladeiras de celas ocupadas por mafiosos, além do tradicional confisco de armas e drogas. Claro que os presos não gostaram muito, então para acalmar os ânimos ele promoveu esse show do Rei do Blues no pátio da prisão. E a química entre o bluesman e os presos foi total, ambas as partes parecem muito felizes com o show, que começa com a detonante "Every day I have the blues", seguida por "How blue can you get" e atinge o ápice com uma das melhores versões do clássico "The thrill is gone". Sonzeraça!

B.B. King - Live at Cook County Jail (1971)

01 - Introductions 
02 - Every day I have the blues
03 - How blue can you get?
04 - Worry, Worry
05 - Medley: 3 o'clock blues/Darlin' you know I love you
06 - Sweet sixteen
07 - The thrill is gone
08 - Please accept my love

quarta-feira, 31 de março de 2010

Fania All Stars - Live at the Yankee Stadium (1976)



Fania All Stars é um ensemble de músicos criado pela Fania Records, tradicionalíssima gravadora de salsa que reuniu por décadas os melhores salseros do mundo. A banda era formada pelo lendário cantor porto-riquenho Héctor Lavoe (“El Cantante de los Cantantes”), o trombonista Willie Colón, o percursionista e maestro Tito Puente, a cantora cubana Celia Cruz, Rubén Blades (o poeta da salsa), Cheo Feliciano, Bobby Vantentín, o guitarrista mexicano Jorge Santana (irmão menor da fera) entre outros, comandados pelo maestro dominicano Johnny Pacheco. A maioria dos músicos da banda fizeram sucesso depois com carreiras solo e ganharam vários Grammys de música latina. 

O grupo foi criado nos anos 60 e teve seu auge nos anos 70. Além de terem revolucionado a salsa (um estilo musical recente, que só começou a ser chamado assim na época da Fania), os músicos da banda formavam uma turminha da pesada. Uma das canções chama-se "Lluvia y nieve", uma alusão ao combustível das baladas que eles faziam - respectivamente, álcool e cocaína. Héctor Lavoe foi um dos que se deram mal nessa história: viciado em heroína, entrou em depressão, tentou se matar, ficou paraplégico e pegou AIDS. Saravá.

A crème de la crème da banda é sem dúvida a performance ao vivo. Eles lotaram lotaram locais como o Cheetah Lounge e o Yankee Stadium em Nova York, além de mega shows no Teatro Carlos Marx em Cuba e em Porto Rico. Também participaram do festival de música de Kinshasha, no Zaire, que antecedeu à lendária luta de Muhammed Ali e George Foreman (tudo devidamente documentado no filme "Soulpower").

Aos não iniciados na salsa, recomenda-se beliscar este vídeo, gravado no Zaire, como aperitivo...



Aos que gostaram e querem mais, aí vai o álbum gravado ao vivo durante o show no Yankee Stadium, very very good! Ou como dizem os próprios, "echale semilla a la maraca pa' que suene"!

Ouveae1!
Ouveae2!

sexta-feira, 12 de março de 2010

Ave Sangria - Ave Sangria (1974)



A banda que escandalizou a Recife de 1974, da mesma forma que os Rolling Stones a Londres de dez anos antes, a Ave Sangria era conhecida como os Stones do Nordeste.

Primeiramente chamada de Tamarineira Village, a banda faz um som psicodélico que me lembra muito o Secos & Molhados, principalmente pelas variaçoes entre as musicas, que partem de um sambinha "suspeito" (Seu Waldir) e culminam em fritaçoes como Tres Margaridas, com uso de vocais androginos, oscilaçoes de frequencia e guitarra elétrica que batem forte na cabeça.

Pra se ter uma idéia dos tipos que compunham a banda, cito aqui um "causo" que ganhou fama, quando Rafles, um dos integrantes do Ave Sangria, enviou pelo correio, um reforçado baseado, em legítimo papel Colomy, para Paul McCartney. Meses depois, ele recebeu a resposta do Beatle: uma foto autografada como agradecimento.

Foi o mesmo figura quem propôs o nome Tamarineira Village, quando o grupo tomou uma forma definitiva, com a entrada do cantor e letrista Marco Polo, logo depois da I Feira Experimental de Música de Fazenda Nova.

O disco em questao viria com a indicação da banda, pelo empresário dos Novos Baianos, à Continental, a primeira gravadora a apostar no futuro do rock nacional. Antecipando a gozação por serem nordestinos, os integrantes da banda chegaram no estúdio Hawai, na Avenida Brasil, Rio, todos de peixeira na mão: "Falamos para o pessoal ter cuidado, porque a gente vinha da terra de Lampeão", relembra Almir Oliveira. Foi um dos poucos momentos de descontração da banda. Com exceção de Marco Polo, nenhum dos integrantes conhecia o Rio e jamais haviam entrado num estúdio de gravação.

Mesmo pouco divulgado, o disco conseguiu relativo sucesso no Sudeste, e vendeu bastante em alguns Estados do Nordeste. Uma das músicas que fizeram mais sucesso, e polêmica, foi o samba-choro Seu Waldir. "Seu Waldir o senhor/ Machucou meu coração/ Fazer isto comigo, seu Waldir/ Isto não se faz não... Eu quero ser o seu brinquedo favorito/ Seu apito/ Sua camisa de cetim..." Numa época em que a androginia tornava-se uma vertente da música pop. Seu Waldir por pouco não vira mito. Uns diziam que era um senhor que morava em Olinda, pelo qual o vocalista do Ave Sangria apaixonara-se. Outros, que se tratava de um jornalista homônimo. Enfim, acreditava-se que o tal Waldir era um personagem de carne e osso. No fim das contas, o Departamento de Censura da Polícia Federal acabou proibindo o LP e determinou seu recolhimento em todo território nacional.

O disco foi relançado sem a faixa maldita, mas aí o interesse da mídia pelo grupo já havia passado. A Globo, por exemplo, desistiu de veicular o clipe feito para o Fantástico, com a música Geórgia A Carniceira. Nao por coincidencia, como um dos fatores que levaram ao fim os Novos Baianos, os caras tinham a grana curta, alguns ja com filhos, e nao conseguiam levar a vida como banda, que faz o seu ultimo show em dezembro de 74, mas que ainda hoje é ouvida e eu tenho o prazer de lhes apresentar.

Faixas:


01. Dois Navegantes

02. Lá Fora

03. Três Margaridas

04. O Pirata

05. Momento na Praça

06. Cidade Grande

07. Seu Waldir

08. Hei! Man

09. Por Que?

10. Corpo em Chamas

11. Geórgia, a Carniceira

12. Sob o Sol de Satã


Ouveaê!

terça-feira, 9 de março de 2010

Rashaan Roland Kirk - Rip, Rig and Panic (1965)


Outro discasso apresentado pelo mestre Brunoise, essa pepita de Rashaan Roland Kirk é descrito por alguns como o "Punk-jazz" da época. O saxofonista Roland Kirk, que depois acrescentou o Rashaan ao nome, é uma das figuras mais malucas da história do jazz. Ficou cego aos dois anos de idade, e como muitos outros deficientes visuais, desenvolveu extremo talento musical. Uma de suas marcas registradas é tocar dois saxofones ao mesmo tempo (!), além de criar seus próprios instrumentos. Mas além das excentricidades, Kirk é conhecido pelo completo domínio da técnica e pela inesgotável capacidade de improvisação no instrumento. Neste disco de 1965 ele entrega uma performance altamente energética, respaldado por um quarteto que quebra tudo na parte rítmica, graças em grande parte ao baterista Elvin Jones. Os solos altamente improvisados de Kirk se encarregam de acabar de quebrar tudo. Portanto, em uma palavra,QUEBRADEIRA!

Rashaan Roland Kirk - Rip, Rig and Panic (1965)

1. No Tonic Press
2. Once in a While  
 3. From Bechet, Byas, And Fats
 4. Mystical Dreams
 5. Rip, Rig and Panic
 6. Black Diamonds
 7. Slippery, Hippery, Flippery

Ouveaê!

terça-feira, 2 de março de 2010

Ez3kiel - Versus Tour (2004)



Se você prestar atenção na música que dá nome ao disco vai sentir a mistura entre as imagens e o som propostas pelo trio francês: cada nome que é cantado estimula uma reação no ouvinte, mesmo que seja algo distante de nossas realidades. O disco continua assim, ao vivo, fazendo uma bela cama para o final apoteótico e arrepiante com Requiem.



Ez3kiel - Versus Tour (2004)
1- Versus
2- How do you sleep
3- Phantom Land
4- Via Live
5- Handle
6- Barb4ry
7- Strange Days
8- Lac des Signes
9- 3 Rue Monplaisir
10- Sûrement
11- Jah´s Hardcore
12- Requiem

ouveaê!

segunda-feira, 1 de março de 2010

Miles Davis - In a Silent Way (1969)


A segunda-feira nublada, fria e garoenta em São Paulo pede um disco com esse clima melancólico e ao mesmo tempo etéreo. Em 1969 Miles Davis já tinha revolucionado o jazz mais de uma vez. Já havia ajudado a criar o Cool Jazz, o Jazz Modal, o Hard Bop e neste álbum cujo título diz tudo, ele começa o que talvez seja sua maior revolução: o Fusion.

1969 foi o ano de Woodstock, e Davis estava na época fascinado pela música de Jimi Hendrix. A influência de Hendrix seria mais sentida no disco seguinte, o também revolucionário Bitches Brew. Neste In a Silent Way, Miles se juntou com mais sete jovens músicos, se afastando do seu clássico quinteto que fez, entre outros, Kind of Blue.


Entre estes jovens músicos estavam os pianistas/tecladistas Herbie Hancock, Chick Correa e Joe Zawinul, o saxofonista Wayne Shorter e o guitarrista John McLaughlin. Das sessões gravados com esse octeto surgiu, através da parceria de Miles com o produtor Teo Macero, álbum. Os dois fizeram uma verdadeira alquimia de estúdio para gerar as duas longas sessões de improvisação quase telepática que geraram as duas faixas, um de cada lado do disco: Shhh/Peaceful e  In a Silent Way/It's About That Time. É free-jazz, no sentido que se desprende quase totalmente da estrutura clássica do jazz, e é também o prenúncio do Fusion.

Se a música só faz sentido em contraste com o silêncio, esse disco silencioso é um dos sons mais transcendentes e etéreos (dá-lhe adjetivos chapados) já produzidos. Uma viagem que combina como poucas com o clima nublado.

Miles Davis - In a Silent Way (1969)

01 - Shhh/Peaceful
02 - In a Silent Way/It's About That Time

Ouveaê!

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Built to Spill - Keep it Like a Secret (1999)




Ainda na pegada 90s, uma banda que sintetiza década inteira. Muito lo-fi, grunge, indie e guitarreira alta.

Built to Spill - Keep it Like a Secret (1999)

01 - The Plan
02 - Center of the Universe
03 - Carry the Zero
04 - Sidewalk
05 - Bad Light
06 - Time Trap
07 - Else
08 - You Were Right
09 - Temporarily Blind
10 - Broken Chairs

My Bloody Valentine - Loveless (1991)


Iniciados oficialmente os ANOS 10, termina também oficialmente o período de nostalgia dos anos 80 e começamos a relembrar os NINETIES, que convenhamos, foram muito melhores, principalmente na música. Embora valorosas bandas como Pixies e Sonic Youth, entre outras, mantessem vivo o espírito do rock alternativo nos 80s, foi na década seguinte que o tal do INDIE ROCK explodiu, e 1991 foi 'the year that punk broke', onde foram lançados, por exemplo, o Nevermind, do Nirvana, Ten, do Pearl Jam, Bloodsugarsexmagik do Red Hot Chilli Peppers e Scramadelica, do Primal Scream.

Mas talvez o melhor disco lançado neste ano foi este Loveless, obra-prima do chamado SHOEGAZE. Obra dos irlandeses do My Bloody Valentine, Loveless influenciou toda uma geração de moleques que empunhavam guitarras distorcidas e dançavam olhando para o chão.

Por mais que você, mundrugo brasileiro que gosta de música animada, torça o nariz para essas INDIEZICES, recomendo ouvir esse disco com a devida atenção. Trata-se de uma obra-prima ,que demorou mais de dois anos para ser feita e quase levou o lendário selo Creation à falência. Faixas como Only Shallow, Loomer, When You Sleep e To Here Knows When possuem uma textura de arranjos psicodélicos e distorção sensual que servem de base aos vocais do gênio Kevin Shields e de Blinda Butcher. Como diz a resenha do Allmusic, o disco transpira "druggy sex or sexy drugs".

My Bloody Valentine - Loveless (1991)


01 - Only Shallow
02 - Loomer
03 - Touched
04 - To Here Knows When
05 - When You Sleep
06 - I Only Said
07 - Come In Alone
08 - Sometimes
09 - Blown A Wish
10 - What You Want
11 - Soon

Ouveaê!

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

John Zorn - Naked City (1989)


Já tinha ouvido falar deste maluco chamando JOHN ZORN pelo amigo Brunoise, mas nunca tinha ouvido com a devida atenção. Hoje resolvi baixar esse Naked City, sonzera das GRANDES. Basicamente, é "Jazz de Vanguarda meets Hardcore", ou o único Jazz possível de se fazer no início dos anos 90. O saxofonista nova-iorquino Zorn é um dos músicos mais prolíficos das últimas décadas, tendo lançado mais de 100 discos desde o início dos anos 80, muitos excelentes, e esse é uma boa amostra do som do cara. Além de composições próprias, traz versões de alta voltagem para temas de filmes como Batman, Chinatown e peças de Henry Mancini e Enio Moriccone, além de uma cover de seu ídolo e mestre do Free Jazz Ornette Coleman. A banda de apoio segura bem a incontrolável energia de Zorn.
A começar pelo nome e pela capa, com um corpo de um homem baleado em Nova York, é um disco de jazz que transpira o clima acelerado, violento e vibrante de NY e das metrópoles em geral no início das últimas décadas do século 20.

Ouveaê!

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Rafael Rabello & Dino 7 Cordas (1991)



Segunda-feira de correria, vou colocar esse discão de dois dos maiores violonistas da históriadesse país fazendo clássicos de Pixinguinha, Garoto, Ernesto Nazareth, João Pernambuco, entre outros. Para acalmar qualquer estressado.

abaixo informações e link surrupiados do discos,etc



Momento histórico do violão brasileiro. Encontro entre Dino 7 Cordas (Horondino José da Silva, companheiro de Jacob do Bandolim no conjunto Época de Ouro) e Raphael Rabello, um virtuose de personalidade inconfundível. Possuía o que hoje se costuma chamar de assinatura musical, um traço distintivo.

Temas de Pixinguinha, Garoto, Benedito Lacerda, Ernesto Nazareth, Alcyr Pires Vermelho e Lamartine Babo interpretados de forma afiada e criativa. Sem esquecer as músicas de João Pernambuco, um nome injustamente pouco lembrado. O musicólogo Mozart de Araújo entende que as composições para violão de João Pernambuco têm a mesma importância para a música brasileira que as composições para piano de Ernesto Nazareth.

Raphael Rabello morreu alguns anos após o lançamento desse disco, mas gravações como Desvairada, do compositor Garoto, mostram o instrumentista no auge.

Dino 7 Cordas - violão 7 cordas, arranjos
Rafael Rabello - violão, arranjos
Jorginho do Pandeiro - pandeiro
Celsinho Silva - percussão
Neco - cavaquinho

01 - Conversa de Botequim (Noel Rosa)
02 - Jongo (João Pernambuco)
03 - Escovado (Ernesto Nazareth)
04 - Alma de Violinos (Lamartine Babo / Alcyr Pires Vermelho)
05 - Um a Zero (Pixinguinha / Benedito Lacerda)
06 - Odeon (Ernesto Nazareth)
07 - Sons de Carrilhões (João Pernambuco)
08 - Segura Ele (Pixinguinha / Benedito Lacerda)
09 - Desvairada (Garoto)
10 - Graúna (João Pernambuco)
11 - Sonho de Magia (João Pernambuco)

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Curtis Mayfield - Superfly (1972)

1972, o movimento pelos direitos civis dos negros norte-americanos já era notícia velha, da década anterior, o black power já estava consolidado. O que não quer dizer que a vida dos african americans tenha melhorado muito. 1972, o entusiasmo hippie pelas drogas alteradoras de consciência já estava na fase da ressaca, e a criminalidade relacionado ao tráfico de drogas nas grandes cidades dos EUA crescia. 1972, um novo sugênero cinematográfico, o BLAXPLOITATION, filmes com temática violenta e personagens do submundo negro, começava a fazer sucesso.

Todos esses fatores levaram à criação desta obra-prima da black music. Curtis Mayfield, veterano soulman identificado com o movimento dos direitos civis, autor de pedradas como People Get Ready e Move on Up, foi chamado pelo diretor Gordon Parks Jr. para fazer a trilha sonora de um filme sobre um traficante de cocaína que começa a refletir que o caminho que segue vai levá-lo ou à cadeia ou ao cemitério em pouco tempo.

E Mayfield fez uma das melhores trilhas sonoras da história, responsável por colocar esse filme nas enciclopédias de história do cinema como principal representante do Blaxplotation. As músicas, de uma pegada groove-hipnótica insana, contam as histórias do filme sem apelar para o paternalismo ou glorificação da criminalidade, tampouco ao moralismo barato. Pusherman mostra o traficante como um homem de negócios como outro qualquer, Little Child Runnin' Wild mostra o sofrimento das crianças dos guetos negros, Freddie's Dead, que foi sampleada pelos Racionais MC's em Mano na Porta do Bar, narra a morte do trafica boa-praça Freddie e a indiferença dos à sua volta, e a faixa-título é um verdadeiro clássico 70's.

Enfim, funk groove soul urbano da melhor qualidade

01 - Little Child Runnin' Wild
02 - Pusherman
03 - Freddie's Dead
04 - Junkie Chase
05 - Give Me Your Love (Love Theme)
06 - Eddie You Should Know Better
07 - No Thing On Me (Cocaine Song)
08 - Think
09 - Superfly

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Louis Armostrong - The Complete Hot Five and Hot Seven Recordings

Rapaz, esse negócio de fazer blog de música vicia. Aliás, música vicia. Música é bom demais. Então devemos sempre prestar homenagem aos grandes mestres desta nobre arte. E este belo e elegante rapaz negro posando pra foto aí em cima é um dos maiores entre os maiores. Louis Daniel Armostrong foi um dos criadores e talvez o maior embaixador do estilo de música que chamamos de JAZZ.

Louis nasceu na aurora do século XX, e não poderia ter nascido em outro lugar que não Nova Orleans. Ele sempre afirmou ter nascido em 4 de julho de 1900, data emblemática até demais, tanto que historiadores comprovaram que sua verdadeira data de nascimento é 4 de agosto de 1900. Neto de escravos, veio ao mundo numa família paupérrima. O pai se mandou pouco depois de seu nascimento, a sua mãe teve que se virar, vindo até a se prostituir. Louis viveu boa parte da infância com a avó, num dos bairros mais pobres de Nova Orleans. Começou a trabalhar com cinco anos, fazendo bicos como entregador de jornais e recolhendo comida descartada pelos restaurantes. Mas não deixou de ir à escola, e foi lá que entrou em contato com a música "creole" de Nova Orleans. Trabalhou também vendendo carvão nas ruas da histórica zona de meretrício de Storyville, nas docas da cidade. Os cabarés e casas de shows de Storyville foram o local de nascimento do jazz, e desde moleque Louis via os grandes músicos da época, como os lendários Joe "King" Oliver e Kid Ory, se apresentando.

Com onze anos aprendeu, de ouvido, a tocar corneta com King Oliver. Trabalhou na casa de uma família judia que tinha um comércio de ferro-velho e o tratava como filho. Louis sempre mencionou a gratidão à família Karnofsky, e usou um pingente com a Estrela de Davi até sua morte. Foi internado diversas vezes em um reformatório por delinquência na adolescência, e foi na banda do reformatório que desenvolveu sua natural habilidade com a corneta. Logo virou o líder da banda, que se apresentava regularmente nas ruas de Nova Orleans. E, rapidamente chamou a atenção dos músicos locais. Foi solto do reformatório aos 14 anos e começou a trabalhar em um cabaré de Storyville, carregando carvão de dia e tocando corneta a noite.

Também tocava frequentemente nas tradicionalíssimas bandas de rua de Nova Orleans, e escutava os grande músicos da época sempre que podia. King Oliver virou seu mentor. Começou a excursionar com a banda de Fate Marable, que tocava em um dos famosos barcos a vapor que subiam e desciam o Rio Mississipi. Ele considerava essa época tocando no Mississipi como sua "Universidade". Em 1918 King Oliver partiu rumo ao norte dos Estados Unidos, e Louis ficou com seu lugar como trompetista da banda liderada por Kid Ory. Continuou se apresentando nos barcos a vapor, e amadureceu seu talento nato, aprendendo a ler as partituras. Em 1922 aceitou o convite de Oliver e partir para Chicago, como milhões de negros norte-americanos que nos anos 20 migraram da pobreza do sul para trabalhar na pujante indústria do norte dos EUA.

A banda de King Oliver era a mais famosa banda de Jazz de Chicago, e Chicago era o centro do jazz nos Estados Unidos, com Nova York em segundo lugar. Pela primeira vez Louis viveu com conforto, morando num belo apartamento e tocando em locais refinados. Realizou suas primeiras gravações nos selos Okeh e Gannett, quando os discos de jazz começavam a circular pelo país. Mas logo saiu da banda de Oliver, atendendo os anseios de sua esposa, a pianista Lil Harding Armstrong, que ansiava para que marido tivesse mais destaque. Foi para Nova York e tocou em diversas bandas importantes, como a de Fletcher Henderson, a principal banda só de negros da época. Marido e mulher tocavam também peças clássicas nas Igrejas para desenvolver ainda mais seus dotes musicais. Ainda acompanhou cantoras de blues como a lendária Bessie Smith.

Em 1925 retornou para Chicago, desta vez para ser líder de banda, e foi neste ano que começou a gravar as históricas sessões com o grupo Hot Five, formado para acompanhá-lo. Os Hot Five tinham a esposa Lil no piano, o velho companheiro Kid Ory no Trombone, Johnny Dodds no clarinete e Johnny St. Cyr no banjo. Armstrong era o líder, mas era um chefe tão legal que os outros músicos se sentiam totalmente a vontade. Em 1925 gravaram clássicos absolutos como "Potato Head Blues", "West End Blues", "Cornet Chop Suey" e "Muggles", apelido para a maconha, erva da qual o bom e velho Louis era grande apreciador. "Em "Heebie Jeebies", Louis com todo seu talento para a improvisação inventava o "scat singing" tornando para sempre famosa sua voz inconfundível. Para as sessões com o Hot Seven entraram o baterista Baby Dodds, irmão de Johhny, e Pete Briggs na tuba. Os compactos de 78 rotações que resultaram dessas gravações históricas fizeram enorme sucesso e tornaram Louis Armostrong o mais famoso jazzista de todos os tempos. E o resto é História...

Bem, já falei demais. O fato é que todas as músicas gravadas na época, inclusive em versões alternativas, foram reunidas num verdadeiro trabalho arqueológico em coleções particulares e nas coleções do Instituto Smithsonian, digitalizadas dos originais de 78 RPM e remasterizadas, e aparecem nesta box-set com quatro CDs, e vocês podem pegar tudo aqui! Vai lá que o negócio é fino.

Louis Armostrong. The Complete Hot Five and Hot Five Recordings

Track Listing (Disc 1): Gut Bucket Blues; My Heart; Yes I'm In The Barrel; Come Back Sweet Papa; Georgia Grind; Heebie Jeebies; Cornet Chop Suey; Oriental Strut; Your Next; Muskrat Ramble; Don't Forget To Mess Around; I'm Gonna Gitcha; Droppin' Shucks; Who'zit; King Of The Zulus; Big Fat Mama And Skinny Pa; Lonesome Blues; Sweet Little Papa; Jazz Lips; Skid-Dat-De-Dat; Sunset Cafetomp; You Made Me Love You; Irish Black Bottom. (Total Time: 68:35).

Track Listing (Disc 2): Put'em Down Blues; Ory's Creole Trombone; The Last Time; Struttin' With Some Barbecue; Got No Blues; Once In Awhile; I'm Not Rough; Hotter Than That; Savoy Blues; He Likes It Slow; Gambler's Dream; Sunshine Baby; Adam And Eve Had The Blues; Put It Where I Can Get It; Wash Woman Blues; I've Stopped My Man; Georgia Bo Bo; Drop That Sack; Drop That Sack; Cornet Chop Suey. (Total Time: 61:27).

Track Listing (Disc 3): Willie The Weeper; Wild Man Blues; Alligator Crawl; Potato Head Blues; Melancholy Blues; Weary Blues; Gully Low Blues; That's When I'll Come Back To You; Chicago Breakdown; Weary Blues; New Orleans Stomp; Wild Man Blues; Wild man Blues; Melancholy Blues; Melancholy Blues; You're A Real Sweetheart; Too Busy; Was It A Dream; Last Night I Dreamed I Kissed You. (Total Time: 68:20).

Track Listing (Disc 4): Fireworks; Skip The Gutter; A Monday Date; Don't Jive Me; West End Blues; Sugar Foot Strut; Two Deuces; Squeeze Me; Knee Drops; No (No, Papa, No); Basin Street Blues; No One Else But You; Beau Koo Jack; Save It, Pretty Mama; Muggles; Hear Me Talking To You; St. James Infirmary; Tight Like This. (Total Time: 73:53).

Ouveaê!!!
Senha pra descompactar o arquivo: flipyourwig

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Jackson do Pandeiro - Sua Majestade - O Rei do Ritmo (1960)

Depois de uma leva de posts de discos gringos, nada mais justo que colocar aqui um disco emblemático de um dos maiores e mais influentes músicos da História da Música Popular Brasileira.

José Gomes Filho nasceu na pequena cidade de Alagoa Grande, interior da Paraíba, em 31 de agosto de 1919, em uma família de artistas populares. Sua mãe, Flora Mourão, era cantora e folclorista de Pastoril. Ganhou o apelido de Jack, e depois Jackson, ainda menino, por sua semelhança com um ator de filmes mudos de faroeste que eram sucesso no cinema da cidade. Começou a tocar zabumba acompanhando a mãe nas tradicionais feiras que percorriam o interior do nordeste, mas logo sua perícia com o pandeiro lhe rendeu o sobrenome artístico. Além de instrumentista e ritmista, Jackson compunha e cantava, com uma voz inconfúndivel.

O grande mérito de Jackson do Pandeiro foi conseguir traduzir toda a riqueza dos ritmos típicos nordestinos, do Forró ao Samba de Coco, para o grande público do resto do Brasil, a partir de 1953, quando se apresentou pela primeira vez no rádio. Nisso rivaliza com o grande Luiz Gonzaga o posto de principal divulgador do forró, mas muitos afirmam que enquanto Gonzagão apenas divulgou os ritmos que já conhecia, Jackson era um criador, expandindo os limites dos ritmos nordestinos.

Jackson se fixou no Rio de Janeiro, foi contratado pela então toda-poderosa Rádio Nacional e gravou diversos compactos. Boa parte de seus sucessos, como a lindíssima "Canto da Ema", cantada por Gilberto Gil em Expresso 2222, "Sebastiana", "Forró em Caruaru" "1X1", "Coco de Improviso" e a impagável "Xote de Copacabana", foram reunidas neste LP lançado em 1960 pela gravadora Copacabana Discos. Dos grandes sucessos do Rei do Ritmo só ficou de fora a clássica "Chiclete com Banana", onde o Bebop entrava na misturada de Jackson do Pandeiro. Mas pra vocês não ficarem tristes, vai também um vídeo do mestre explicando a origem do apelido e mandando Chiclete com Banana ao vivo.


e depois do aperitivo, segue o prato principal:

Jackson do Pandeiro - Sua Majestade - O Rei do Ritmo (1960)

01 - Forró em Caruaru
02 - Cabo Tenório
03 - O Canto da Ema
04 - Sebastiana
05 - Cremilda
06 - Coco de Improviso
07 - Xote de Copacabana
08 - A Mulher do Aníbal
09 - 1X1
10 - Coco Social
11 - Falsa Patroa
12 - O Crime Não Compensa

sábado, 2 de janeiro de 2010

Mission of Burma


Feliz ano novo, fiéis ouvintes do Ouveaê! Para começar 2010 com o pé-direito, vou postar os dois discos clássicos dessa excelente banda de Boston, Massachussets, formada no longínquo ano de 1979, no bojo da revolução punk. Como os já aqui citados Television, o Mission of Burma tinha a atitude punk, mas não acreditava nesse negócio de que pra ser punk tem que tocar mal. Assim, com suas músicas ao mesmo tempo barulhentas e ricas em melodia, o Mission é creditado como uma das principais bandas do post-punk e um dos pais do Indie Rock norteamericano.

A sonoridade do Mission of Burma estava centrada na guitarra feroz de Roger Miller, amparada no baixo de Clint Conley e a bateria de Peter Prescott. Influenciados por gente como The Stooges e Velvet Underground, o Mission definitavemente não era uma banda Punk qualquer. Contribuía para isso o fato deles gravarem num dos melhores estúdios de Boston, longe da tosqueira típica das gravações de bandas punks.

Em 1981 lançaram o sensacional single Academy Fight Song, e logo depois o primeiro EP, Signals, Calls and Marches.

Mission of Burma - Signals, Calls and Marches (1981)


A faixa de abertura, 'Academy Fight Song', não estava incluída originalmente no EP, pois foi lançada como single. Mas nessa reedição não podia faltar, e é seguida da também ótima 'Max Ernst'. Outros destaques são a clássica 'That's When I Reach for My Revolver' e 'This is Not a Photograph'. Em comum as letras com referências artísticas e filosóficas, os vocais meio declamatórios, as inusitadas quebras no tempo das músicas e o ritmo alucinado.

01 - Academy Fight Song
02 - Max Ernst
03 - Devotion
04 - Execution
05 - That's When I Reach For My Revolver
06 - Outlaw
07 - Fame And Fortune
08 - This Is Not a Photograph
09 - Red
10 - All World Cowboy Romance


Logo depois os Missions lançaram o primeiro (que seria seu único) álbum:

Mission of Burma - Vs. (1982)


Vs. é estranhamente menos pop e mais experimental que Signals, Calls and Marches, com menos riffs e refrões pegajosos, mas é uma bela coleção de caos sonoro, com destaque para a porrada 'That's How I Escaped my certain Fate' e as ótimas 'Einstein's Day' e 'The Ballad of Johnny Burma'.

01 - Secrets
02 - Trains
03 - Trem Two
04 - New Nails
05 - Dead Pool
06 - Learn How
07 - Mica
08 - Wheaterbox
09 - The Ballad of Johnny Burma
10- Einstein's Day
11 - Fun World
12 - That's How I Escaped My Certain Fate
13 - Laugh The World Away
14 - Forget
15 - Progress
16 - OK No Way


A banda acabaria logo depois, por um motivo deveras pitoresco. AS apresentações ao vivo do Mission eram conhecidas por ser das mais barulhentas possíveis. Isso fez com que o guitarrista Roger Miller começasse a perder a audição. Assim, antes de ficar surdo de vez ele pediu pra sair, e a banda sem ele não fazia sentido. Uma amostra da porradaria ao vivo do Mission pode ser sentida no disco ao vivo 'The Horrible Truth About Burma', lançado em 1985, com músicas da turnê de despedida.

Mission of Burma - The Horrible Truth About Burma (1985)



A banda inesperadamente voltou a se reunir em 2002, e em 2004 lançaram um novo disco, bem bom aliás, OnOffOn, e desde então tem excursionado e lançou mais dois discos. Mas não achei o link dos novos discos, então quem se interessar, se vira! heheheh...